Livro · Os Lusiadas
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Autor: Luis de Camoes
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36 Os crespos fios d'ouro se esparziam Pelo colo, que a neve
escurecia; Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, Com quem Amor
brincava, e não se via; Da alva petrina flamas lhe saíam, Onde o
Menino as almas acendia; Pelas lisas colunas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.
37 C'um delgado sendal as partes cobre, De quem vergonha é
natural reparo, Porém nem tudo esconde, nem descobre, O véu, dos
roxos lírios pouco avaro; Mas, para que o desejo acenda o dobre,
Lhe põe diante aquele objeto raro. Já se sentem no Céu, por toda
a parte, Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
38 E mostrando no angélico semblante Co'o riso uma tristeza
misturada, Como dama que foi do incauto amante Em brincos
amorosos mal tratada, Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
E se torna entre alegre magoada, Desta arte a Deusa, a quem
nenhuma iguala, Mais mimosa que triste ao Padre fala:
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